Marta era assim, sapeca de sorriso no olhar, olhos cor-do-sol, ao que ela me retrucava não existir. Ora,como não, podia ver a cor do sol no olhar dela.
Reconhecia seus passos de longe, e ao invés de olhar logo, fechava os olhos, e brincava de imaginar seu all star passeando entre as pessoas. Branco, all star branco, ou amarelo por falta de limpeza. Como pode, tão relaxada comprar logo tênis branco.
Gostava de cosquinha na barriga, e de me morder. Eu perguntava se ela era gente ou gato. Ela ria. Ah, o sorriso de Marta. Consigo ouvir e sentir dor no estômago de saudade.
Às vezes, me sentia pai dela, mas sempre cheio de tesão por aquelas pernas grossas e peitos miúdos. Boca molhada, cheiro doce.
Eu ficava vermelho quando alguém na rua elogiava a beleza da minha filha e seus cabelos enrolados. Ela ria-se toda, e me dava um beijo na boca, deixando a mim e a quem perguntou constrangido.
Pela manhã, seu hálito era bom, e eu tinha que me esforçar pra conseguir um beijo, antes dela escovar os dentes.
Adorava tirar meu lençol no frio pra me ver remexer na cama até acordar, e encontrar o sorriso faceiro.
Se dizia forte, segura de sentimentos, mas chorava vendo filmes românticos, que me obrigava a assistir com ela, até que, por fim, quem queria ver era eu.
Deslizava de calcinha pela casa, comia uma maça distraidamente, sem saber como o meu coração andava com ela.
Aparecia com unhas pintadas de coral, azul e até amarelo.
Se fosse a minha filha, eu criticaria, mas era ela, era Marta.
Tinha ímpetos de correr pela rua me carregando. Eu não entendia, nunca entendi, mas a seguia.
Dizia que meu colo havia sido feito pra ela. E havia mesmo.
Um dia, ela não apareceu. Não sabia nada dela. Nem seu endereço, só um número que quando liguei disseram não existir.
Ela decidia me ver, e, de repente, decidiu não ver mais.
Ah, o sorriso de Marta. Pode alguém da minha idade chorar por amor?
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terça-feira, 13 de outubro de 2009
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Izabella,
É que eu sou muito orgulhoso, e você bem sabe.
Nunca sigo minha primeira vontade, o primeiro instinto. Sempre penso, e com o pensamento, o orgulho me leva para a segunda vontade, tão certa e tão sem cor.
Mas, talvez, esse seja meu primeiro impulso, e é até minha primeira carta, por isso não sei se sei escrever. Me dou tão bem com os números que até me esqueço das letras, mas mais do que elas, o que está saindo aqui, é sentimento.
Não consigo evitar um sorriso ao imaginar sua cara ao receber essa carta, via correio, do jeito mais antigo e bonito.
Mas não consigo imaginar seus sentimentos. Um pouco de raiva eu sei que você irá sentir, mas espero que não seja muito.
Mesmo sabendo que não tenho direito de esperar isso.
Afinal, são anos e não dias, e não sei mais da sua vida.
Quem sabe não vai ser seu namorado que vai ver a carta antes de você. Quem sabe.
Seu cachorro pode te lamber enquanto você me lê. Você comprou um cachorro? Lembro-me que queria tanto, mas nunca concretizava. Aliás, ainda quer ter um cachorro?
Será que ainda toma só um gole de café pela manhã, e sua cor preferida ainda é coral?
Continua pintando as unhas de vermelho e o cabelo de preto?
Será que ainda pensa em mim? Mesmo que de vez em quando, que passe como um cheiro, uma música, mas será?
Talvez eu nunca saiba a resposta ou você queira vir me contar no meu prédio.
Falando nisso, uma ideia me ocorreu: Você ainda mora no mesmo lugar?
Então, talvez, você nunca leia a minha carta.
Mas, se sim, quero que saiba que eu nunca te esqueci, que nunca mais encostei em lábios como os teus. Que meu coração nunca mais palpitou naquela frequência sua, só sua, feita pra você, pra nós.
E nunca mais precisei ser orgulhoso. Acho que nossos defeitos são usados, especialmente, pra quem gostamos.
Não sei como terminar a carta, então fica assim, sem fim, ou talvez, seja esse. Não sei.
André.
Nunca sigo minha primeira vontade, o primeiro instinto. Sempre penso, e com o pensamento, o orgulho me leva para a segunda vontade, tão certa e tão sem cor.
Mas, talvez, esse seja meu primeiro impulso, e é até minha primeira carta, por isso não sei se sei escrever. Me dou tão bem com os números que até me esqueço das letras, mas mais do que elas, o que está saindo aqui, é sentimento.
Não consigo evitar um sorriso ao imaginar sua cara ao receber essa carta, via correio, do jeito mais antigo e bonito.
Mas não consigo imaginar seus sentimentos. Um pouco de raiva eu sei que você irá sentir, mas espero que não seja muito.
Mesmo sabendo que não tenho direito de esperar isso.
Afinal, são anos e não dias, e não sei mais da sua vida.
Quem sabe não vai ser seu namorado que vai ver a carta antes de você. Quem sabe.
Seu cachorro pode te lamber enquanto você me lê. Você comprou um cachorro? Lembro-me que queria tanto, mas nunca concretizava. Aliás, ainda quer ter um cachorro?
Será que ainda toma só um gole de café pela manhã, e sua cor preferida ainda é coral?
Continua pintando as unhas de vermelho e o cabelo de preto?
Será que ainda pensa em mim? Mesmo que de vez em quando, que passe como um cheiro, uma música, mas será?
Talvez eu nunca saiba a resposta ou você queira vir me contar no meu prédio.
Falando nisso, uma ideia me ocorreu: Você ainda mora no mesmo lugar?
Então, talvez, você nunca leia a minha carta.
Mas, se sim, quero que saiba que eu nunca te esqueci, que nunca mais encostei em lábios como os teus. Que meu coração nunca mais palpitou naquela frequência sua, só sua, feita pra você, pra nós.
E nunca mais precisei ser orgulhoso. Acho que nossos defeitos são usados, especialmente, pra quem gostamos.
Não sei como terminar a carta, então fica assim, sem fim, ou talvez, seja esse. Não sei.
André.
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