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sábado, 30 de julho de 2011

na janela

Abriu a janela, sentiu o sol invadí-lo. Sorriu. Então era assim se sentir livre. A mão estava mais leve, não havia mais o peso da aliança. O dia estava lindo. Ele se sentia bem. Respirou fundo. Sentiu o perfume dela. Só talvez não quisesse tanto assim a liberdade.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

saber

Minha intuição não falha. Eu sabia, meu bem, sabia que, no fim, seria o mar, e meu coração, e o vento, e um pouco de vodka e eu.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

mãos de hoje

E ela se entregou. Mesmo ainda sendo visíveis os cortes de outrora, mesmo com medo.
Ela sabia que iria formar novas cicatrizes, que teria outras lágrimas. Mas estava cansada da vida de vento formando palavras não ditas, de labirintos feito de sentimentos que começavam na nuca.

Dormir sem dizer boa noite já estava lhe sufocando. Seus passos não eram ouvidos.
E por mais agoniado que fosse, agora era sorriso.
Era declaração barata de um futuro inexistente.
Era promessa que não seria cumprida.

Também era carinho nos pés e cheiro de nuvem.
Ela sentada, contava a si mesma, memórias de um passado quase apagado – quase.
Não podia esquecer, não queria correr o risco de acreditar outra vez.
Não queria mais a fé.

E assim, sem querer mais que isso, foi andar de mãos dadas.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Vento

Não sentia mais o perfume dela, entrando escondido em seu quarto, pra dormir ao seu lado. Não sentia mais incômodo no estômago ao ouvir o nome dela.
Não estava presente em todos os seus sonhos.

Teve outros amores, trocou os CDs antigos por novos. Jogou fora a sua camisa, que era a preferida dela. Jogou, do sexto andar, as fotos. Deixou todas as lágrimas saírem – mesmo que homem não chore -, pra não ser incomodado mais tarde.

Se sentia livre, mesmo que, às vezes, um vento qualquer trouxesse um passeio de mãos dadas. um beijo roubado. um suspiro.
Já sabia agir nessas situações, era só pensar no trabalho, nos planos para o futuro.

E ele saía, e sorria, e brincava, e dançava, e lembrava dela, e pensava no trabalho.
Acreditava na sua felicidade, mesmo sabendo faltar 1/3. Ele podia viver assim, afinal. E era bem mais fácil que perdoar.

Correndo, perdeu um pouco do fôlego, e sentou em um banco do parque. Sentiu um arrepio. Antes que pudesse desviar os pensamentos, o vento trouxe um papel. Uma foto. O número que nunca esquecera, na ponta da língua.
- Sabrina?

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Boneca de olhos grandes

Era uma vez uma linda boneca,de cabelo enrolado e olhos bem grandes,castanhos.
Ela morava na prateleira mais alta de uma loja,junto com suas iguais.

O que ninguém sabia,era que a boneca tinha um defeito de fábrica:ela tinha sentimentos!Tinha amor em toda parte do seu corpo de plástico.

Se apaixonava por cada olhar que passava por ela,que a observava,e sempre tinha esperança de ser correspondida.
Sentia-se vazia,incompleta,insatisfeita.Sabia que tinha mais pra ver,mais pra sentir,fora da caixa,da prateleira mais alta.

Acompanhou olhos de todas as cores,leu desejos escondidos,e quis fazer parte.Sonhou com beijos,abraços,toques.Se frustrou,magoou,chorou,se desesperou,sofreu.Mas tudo por dentro.Ninguém podia enxugar suas lágrimas invisíveis aos olhos.

Com o tempo,só restou ela,na prateleira mais alta da loja,já cheia de pó,por dentro e por fora.
Tinha se tornado uma boneca amarga,e sabia disso.Sabia mais,tinha consciência de que essa não era sua natureza,que bonecas eram feitas pra brincar com crianças,e não pra se arrepiar e sonhar com um amor.

Já tinha sido tantos amores secretos,tantas mãos macias tocadas em sonhos,que ela decidiu,enfim,parar de sonhar.
Não observava mais os olhares,nem tinha mais esperança que alguém a amasse.

Foi,com os dias,parando de desejar,de querer,de pensar.E se tornou uma boneca de plástico sem sentimentos,afinal.
Foi,então,comprada,e embalada no colo de uma criança.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Saudade

-Você sabe o que é saudade?
-Sim,eu sei.
Ela perguntou,ela respondeu,e era assim que queria.
Ela sabia o que era saudade.E não só no dicionário,também como era sentir.
Afinal,sempre sentira,de muita coisa,de muita gente.
Mas então o que era isso que estava sentido,agora?

Ele disse que iria embora,disse que não a amava mais.
Ela não fez nada,nem chorou,e foi,exatamente ali,que o sentimento começou.
Foi imediato.
Tinha o formato da saudade.Mais era maior.Maior que o coração.

Foi em uma reunião de amigos,em comum,que se conheceram.Ele,depois contou para ela,que sentiu seu cheiro de frutas vermelhas,quando passou perto,e sabia que seria dele.
Ela o achou lindo.Podia ver seus olhos castanhos e seu cabelo liso,mas podia ver mais.

Sentou,e pôs a mão no coração,para acarinhá-lo,na esperança,que não tinha,de fazer a dor diminuir.
-Não me ama mais?

-Você é linda.
E era o que realmente achava daquela menina, de pele macia,branca,de cabelos escuros,lisos,boca avermelhada e carnuda,que lhe ofereceu um beijo,sem dizer nada.
A lua brilhava sob o mar.E ela sabia que não poderia ter feito melhor escolha,do que ter saído da reunião,e ido à praia.

As Lembranças passavam pela sua cabeça.Eram tantas.Se pudesse esquecer.
Se pudesse correr atrás dele.

A areia era quase um convite já aberto.
Deitaram ali.Observaram o céu.Se tocaram.Ela sentiu a pele quente dele,o desejo em cada parte,aumentando o seu.
Foi o sexo mais bonito que os dois poderiam ter.

Não era a saudade que sentia dos amigos,nem da infância,nem a saudade que sentia dos pais.Não era nem mesmo a saudade dele.Era a saudade do amor.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Doce

Ele:Quando você exatamente começou a gostar de mim?Você sabe?

Ela:Quando os seus olhos deixaram de ser qualquer olhos.

Ele:E,sabe,eu tive certeza,quando você pegou na minha mão,rindo,não lembro o motivo,e tudo pareceu poesia.

Ela:É engraçado amar,não é?Tanta gente vive fugindo.Às vezes,se não correspondido pode ser doloroso,mas quando,sim,dá uma paz,uma segurança com vontade de gritar.

Ele:E essa saudade que não passa?Esse correr dos ponteiros quando estamos juntos?

Ela:Melhor acordar com gosto doce.

Ele:Ei,quer casar comigo?

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Simplicidade

Era um dia qualquer,mas era um dia ensolarado.E ela adorava o sol.
Acordou às 07:00,com sua,já conhecida,preguiça matinal.
Mas ao abrir a janela,por instinto,não por costume,viu que o sol veio lhe dar bom dia.Sorriu.

Saiu de casa já arrumada pra ir ao trabalho, perfumada, trazendo no bolso sorriso, sabendo que era, sim, um dia qualquer, mas um dia ensolarado.

Ela, que havia chorado por horas antes de pegar no sono, e andava a reclamar da vida, e não se conformava com o término de um namoro tão longo. Que não sabia mais o que era ser sozinha e estava assustada.

Olhou para o carro, mas resolveu que iria caminhar. O local do trabalho era longe, porém isso não importava.
Chegou atrasada, passou direto. Não, ela não queria sentar em um escritório. Queria mais, queria a vida, queria a ela mesma.

Tirou a sandália, soltou os cabelos, respirou fundo a felicidade que parecia chegar perto, vindo não se sabe da onde como a chuva que veio molhar o rosto.

Sabia que era o dia certo pra correr, lavar a alma, e si ter como companhia.
Chegou em casa leve, quase contente.
Foi um dia qualquer, mas um dia ensolarado-chuvoso

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Sorriso de Marta

Marta era assim, sapeca de sorriso no olhar, olhos cor-do-sol, ao que ela me retrucava não existir. Ora,como não, podia ver a cor do sol no olhar dela.
Reconhecia seus passos de longe, e ao invés de olhar logo, fechava os olhos, e brincava de imaginar seu all star passeando entre as pessoas. Branco, all star branco, ou amarelo por falta de limpeza. Como pode, tão relaxada comprar logo tênis branco.

Gostava de cosquinha na barriga, e de me morder. Eu perguntava se ela era gente ou gato. Ela ria. Ah, o sorriso de Marta. Consigo ouvir e sentir dor no estômago de saudade.

Às vezes, me sentia pai dela, mas sempre cheio de tesão por aquelas pernas grossas e peitos miúdos. Boca molhada, cheiro doce.

Eu ficava vermelho quando alguém na rua elogiava a beleza da minha filha e seus cabelos enrolados. Ela ria-se toda, e me dava um beijo na boca, deixando a mim e a quem perguntou constrangido.

Pela manhã, seu hálito era bom, e eu tinha que me esforçar pra conseguir um beijo, antes dela escovar os dentes.
Adorava tirar meu lençol no frio pra me ver remexer na cama até acordar, e encontrar o sorriso faceiro.

Se dizia forte, segura de sentimentos, mas chorava vendo filmes românticos, que me obrigava a assistir com ela, até que, por fim, quem queria ver era eu.

Deslizava de calcinha pela casa, comia uma maça distraidamente, sem saber como o meu coração andava com ela.
Aparecia com unhas pintadas de coral, azul e até amarelo.
Se fosse a minha filha, eu criticaria, mas era ela, era Marta.

Tinha ímpetos de correr pela rua me carregando. Eu não entendia, nunca entendi, mas a seguia.
Dizia que meu colo havia sido feito pra ela. E havia mesmo.

Um dia, ela não apareceu. Não sabia nada dela. Nem seu endereço, só um número que quando liguei disseram não existir.
Ela decidia me ver, e, de repente, decidiu não ver mais.

Ah, o sorriso de Marta. Pode alguém da minha idade chorar por amor?

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Izabella,

É que eu sou muito orgulhoso, e você bem sabe.
Nunca sigo minha primeira vontade, o primeiro instinto. Sempre penso, e com o pensamento, o orgulho me leva para a segunda vontade, tão certa e tão sem cor.

Mas, talvez, esse seja meu primeiro impulso, e é até minha primeira carta, por isso não sei se sei escrever. Me dou tão bem com os números que até me esqueço das letras, mas mais do que elas, o que está saindo aqui, é sentimento.

Não consigo evitar um sorriso ao imaginar sua cara ao receber essa carta, via correio, do jeito mais antigo e bonito.
Mas não consigo imaginar seus sentimentos. Um pouco de raiva eu sei que você irá sentir, mas espero que não seja muito.
Mesmo sabendo que não tenho direito de esperar isso.

Afinal, são anos e não dias, e não sei mais da sua vida.
Quem sabe não vai ser seu namorado que vai ver a carta antes de você. Quem sabe.
Seu cachorro pode te lamber enquanto você me lê. Você comprou um cachorro? Lembro-me que queria tanto, mas nunca concretizava. Aliás, ainda quer ter um cachorro?

Será que ainda toma só um gole de café pela manhã, e sua cor preferida ainda é coral?
Continua pintando as unhas de vermelho e o cabelo de preto?
Será que ainda pensa em mim? Mesmo que de vez em quando, que passe como um cheiro, uma música, mas será?

Talvez eu nunca saiba a resposta ou você queira vir me contar no meu prédio.
Falando nisso, uma ideia me ocorreu: Você ainda mora no mesmo lugar?
Então, talvez, você nunca leia a minha carta.

Mas, se sim, quero que saiba que eu nunca te esqueci, que nunca mais encostei em lábios como os teus. Que meu coração nunca mais palpitou naquela frequência sua, só sua, feita pra você, pra nós.
E nunca mais precisei ser orgulhoso. Acho que nossos defeitos são usados, especialmente, pra quem gostamos.

Não sei como terminar a carta, então fica assim, sem fim, ou talvez, seja esse. Não sei.

André.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

As mãos balançando

Como ele queria segurar a mão dela, que falava alegremente, supostamente contando mais uma de suas histórias, mas ele não podia ouvir, não dessa vez. Ouvia seu coração, pulsava tão forte. Teve medo que ela pudesse ouvir também. A olhou, ela nem parecia notar que ele estava ali, parecia falar com os pássaros.

Direcionou, novamente, os olhos para as mãos dela. Delicadas, unha rosa, de um rosa vibrante, que combinava com ela, com seu jeito, com sua pele dourada de sol, e cabelos enrolados e claros.
Surpreendeu-se com um sorriso dela em sua direção, olhos nos olhos. Ela não fazia isso, não falava o olhando. Sentiu-se tremer. Aquele sorriso! Já o tinha visto tantas vezes, mas não podia se acostumar.
Se perguntava onde aquilo teria começado, onde tinha deixado de ser sua amiga pra se tornar seu amor.

Ela tornou a olhar em volta, ainda com a voz que parecia soltar no ar.
Segurou a mão dela. Ela apertou a dele. Ainda falava. E ele, agora, estava calmo.
Tudo estava bem.